Mulher sentada a uma mesa de madeira à noite, segurando uma xícara e olhando pensativa para a janela, enquanto um homem ao fundo, no sofá da mesma sala, olha o celular, ilustrando a solidão dentro de um relacionamento.

Solidão no relacionamento: como reconstruir a intimidade

Relacionamentos8 min de leituraPor Elaine Rosa · CRP 06/127648

Sentir-se só mesmo acompanhado merece atenção: nomear a distância é o primeiro passo para investigar o que mudou na intimidade.

A solidão no relacionamento é a experiência de sentir falta de conexão emocional mesmo compartilhando a vida com alguém. Pode aparecer como dificuldade de se sentir ouvido, compreendido ou acompanhado naquilo que importa. A proximidade física permanece, enquanto a possibilidade de compartilhar a própria experiência parece diminuir.

A Organização Mundial da Saúde define a solidão como um sentimento doloroso decorrente da distância entre as conexões que temos e aquelas de que precisamos ou que desejamos. Essa definição ajuda a compreender por que a convivência, por si só, pode deixar necessidades emocionais sem resposta. Veja a explicação da OMS sobre conexão social.

Em uma rotina de consultas, reuniões e decisões importantes, esse desencontro pode ficar difícil de nomear. A vida segue organizada. Os compromissos são cumpridos. Ainda assim, ao final do dia, pode faltar alguém com quem dividir o que foi vivido para além dos acontecimentos da agenda.

Reconhecer essa experiência permite investigar o que aconteceu com a intimidade e quais mudanças são possíveis na relação.

Por que podemos nos sentir sós mesmo acompanhados

Ter com quem conversar e encontrar espaço para uma conversa significativa são experiências diferentes. Um casal pode trocar muitas informações sobre horários, contas e compromissos, mas pouco sobre inseguranças, desejos ou decepções.

Considere uma situação hipotética: depois de um dia difícil, uma pessoa tenta contar que se sentiu incapaz diante de uma decisão profissional. O parceiro oferece soluções, sugere um curso e passa ao próximo assunto. A intenção pode ser ajudar, mas o que ela procurava naquele momento era ser escutada. Se episódios semelhantes se repetirem sem que o desencontro seja percebido, talvez passe a guardar para si o que sente.

Um estudo publicado em 2005 acompanhou 96 casais durante 42 dias, com registros diários de suas interações. A pesquisa encontrou associações entre compartilhar experiências pessoais, perceber o parceiro como responsivo e sentir intimidade. Por ser observacional, o estudo não estabelece uma fórmula causal, mas ajuda a compreender a importância de como uma confidência é recebida. Laurenceau, Barrett e Rovine, no Journal of Family Psychology.

Na prática, vale observar se há curiosidade pela experiência do outro, oportunidade de falar sem antecipar uma crítica e disposição para retomar assuntos que ficaram difíceis.

A solidão também é uma questão de saúde pública

Em novembro de 2023, a OMS criou a Comissão sobre Conexão Social. Seu relatório, publicado em junho de 2025, estimou que cerca de uma em cada seis pessoas no mundo vivencia solidão. Esse dado descreve a população em geral; não mede especificamente a solidão entre casais. Conheça o relatório e o trabalho da comissão da OMS.

Essa dimensão coletiva ajuda a tirar o tema do campo da culpa individual. Ao mesmo tempo, cada experiência precisa ser compreendida em seu contexto: uma agenda cheia, um casamento longo ou uma rede extensa de contatos dizem pouco, isoladamente, sobre a qualidade do apoio que alguém encontra.

O medo de ficar só e as decisões sobre o vínculo

Quando a relação se distancia, a dúvida sobre permanecer pode envolver várias perdas possíveis. Há a história compartilhada, os projetos construídos e a imagem de futuro que parecia definida. Também pode existir receio de reorganizar a vida ou de decepcionar pessoas próximas.

Esses elementos merecem espaço na reflexão. Eles não permitem concluir, por si só, que a relação deva continuar ou terminar. Uma avaliação cuidadosa considera o que ainda aproxima o casal, o sofrimento presente, a segurança de ambos e a disponibilidade real para mudar.

Algumas perguntas podem ajudar:

  • Consigo falar do que sinto sem precisar diminuir a importância da minha experiência?
  • Quais tentativas de aproximação já fizemos e o que aconteceu depois delas?
  • Existe disposição dos dois para rever comportamentos concretos?
  • Que parte da minha decisão se apoia na relação que temos hoje e que parte depende da expectativa de que ela se torne outra?

Essas perguntas abrem uma investigação. Não funcionam como teste para decidir o destino de um relacionamento.

Como a ACT ajuda a compreender a solidão a dois

A Terapia de Aceitação e Compromisso, conhecida como ACT, trabalha o desenvolvimento da flexibilidade psicológica: a capacidade de entrar em contato com o presente e escolher ações orientadas por valores, mesmo quando surgem experiências internas difíceis. Conheça os fundamentos da ACT.

Nesse contexto, a reflexão inclui observar como a pessoa responde ao medo de rejeição, à tristeza ou à frustração. Um silêncio pode representar uma pausa necessária em um momento e, em outro, uma tentativa de evitar uma conversa que vem sendo adiada. O significado depende da situação e das consequências daquele comportamento.

Outro processo da ACT é a desfusão cognitiva, que favorece perceber pensamentos como acontecimentos mentais, reduzindo seu domínio automático sobre as ações. Diante do pensamento “se eu falar, vou estragar tudo”, por exemplo, é possível examinar o que sustenta esse receio e quais condições seriam necessárias para abordar o assunto. Entenda os processos descritos pela Association for Contextual Behavioral Science.

A aceitação, nessa abordagem, se refere à abertura para experiências internas. Ela pode acompanhar decisões de estabelecer limites, pedir mudanças ou encerrar um vínculo. A direção do cuidado precisa considerar a vida e as circunstâncias de quem busca ajuda.

Como começar a reconstruir a intimidade

Quando existe segurança e disposição para conversar, a aproximação pode começar por situações específicas. Os exemplos abaixo servem como pontos de partida para reflexão e precisam ser ajustados à realidade de cada casal.

Descrever uma experiência concreta

Uma conversa ganha clareza quando permite compreender o que aconteceu. Por exemplo: “Ontem, quando tentei contar como foi a consulta e mudamos de assunto, fiquei com a sensação de estar sozinho com aquilo. Gostaria que pudéssemos retomar”.

Essa formulação oferece uma situação reconhecível e um pedido. Ainda será necessário escutar como o outro viveu o mesmo episódio.

Combinar o tipo de apoio de que se precisa

Às vezes, a pessoa quer companhia para pensar; em outras, precisa de ajuda prática. Perguntar “você quer que eu escute ou que pensemos em alternativas?” pode tornar essa necessidade mais explícita. Quem fala também pode dizer: “Neste momento, preciso terminar de contar antes de buscar uma solução”.

Dar condições reais para o encontro

Reservar tempo para conversar envolve examinar a rotina que torna esse tempo possível. Quem administra os compromissos da casa? Como as responsabilidades são divididas? Há descanso suficiente para que os dois consigam estar presentes?

Uma proposta de aproximação precisa caber na vida concreta. Se apenas uma pessoa organiza todos os momentos de convivência e sustenta todas as tentativas de diálogo, essa distribuição também merece ser discutida.

Acompanhar o que muda depois da conversa

Uma conversa importante pode abrir caminho, mas é útil observar o que acontece nas semanas seguintes. Os pedidos foram compreendidos? Algum acordo precisou ser revisto? Ambos conseguem reconhecer seus limites e participar das mudanças?

A reconstrução de um vínculo envolve reciprocidade. Uma pessoa pode iniciar o movimento, mas não consegue decidir sozinha como a outra irá responder.

Solitude e amizade também fazem parte do cuidado

Em linguagem cotidiana, solitude costuma designar a experiência de estar só de maneira escolhida. Para algumas pessoas, esse tempo permite descansar, ler ou perceber necessidades que ficam encobertas pela rotina. Para outras, pode ser difícil ou pouco desejado. Há espaço para diferenças.

Um estudo de 2023, com 178 participantes acompanhados durante 21 dias, encontrou benefícios e custos associados ao tempo passado a sós. Houve associações com menor estresse e maior sensação de autonomia, mas também com mais solidão em determinados dias. A possibilidade de escolher esse tempo modificou parte desses resultados. Os pesquisadores não identificaram uma quantidade ideal que servisse para todos. Weinstein e colaboradores, em Scientific Reports.

A conclusão prática é observar como esse espaço é vivido, sem transformar a capacidade de ficar só em uma exigência de autossuficiência. Amizades, convivência familiar e participação em atividades significativas também podem integrar a vida afetiva. Vale perguntar quais vínculos, além do casal, você deseja cultivar e que espaço eles têm recebido.

Quando procurar ajuda psicológica

O acompanhamento psicológico pode ser considerado quando a solidão persiste, provoca sofrimento ou quando as tentativas de conversar repetem um impasse. O trabalho pode envolver compreender necessidades, examinar padrões de interação e construir condições para decisões mais conscientes.

A psicoterapia individual oferece um espaço para olhar a própria experiência. A possibilidade de terapia de casal deve ser avaliada conforme a demanda, as condições da relação e a participação de ambos. O objetivo do cuidado precisa ser construído com as pessoas envolvidas, sem pressupor a manutenção ou o término do vínculo.

Quando há ameaças, controle ou medo de retaliação, a prioridade é a segurança e uma avaliação individual cuidadosa. Nessa situação, não é adequado tratar o problema apenas como dificuldade de comunicação nem pressionar a pessoa a se expor em uma conversa conjunta.

Se a separação acontecer, também pode ser necessário elaborar o que foi perdido e reorganizar expectativas. Esse processo tem seu próprio ritmo e merece apoio.

Psicoterapia em Alphaville e atendimento online

Se você reconhece essa distância na sua vida afetiva, pode começar falando sobre ela em um espaço de cuidado. Não é necessário chegar à primeira conversa com uma decisão tomada sobre o futuro da relação.

Elaine Rosa é psicóloga, CRP 06/127648, com 10 anos de experiência clínica e atuação orientada pela Terapia de Aceitação e Compromisso. Realiza atendimentos presenciais em Alphaville, Barueri, e online.

Conheça o atendimento de Elaine Rosa e entre em contato para agendar uma conversa inicial.

Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação individual.

O tema também é explorado na conversa de Marcela Ceribelli com Alexandre Coimbra Amaral no episódio “A solidão na intimidade”, do podcast Bom dia, Obvious, que inspirou o texto-base desta reflexão.

Perguntas frequentes

Sentir solidão no casamento significa que o amor acabou?

Esse sentimento, isoladamente, não permite concluir isso. Ele merece ser compreendido junto com a história da relação, as necessidades atuais e a possibilidade de mudanças recíprocas.

Ter uma vida sexual ativa significa que existe intimidade emocional?

A atividade sexual é uma dimensão da vida do casal. Para compreender a intimidade emocional, também é necessário observar como os parceiros compartilham experiências, oferecem apoio e lidam com suas vulnerabilidades.

Posso procurar terapia mesmo que meu parceiro não queira participar?

Sim. Você pode buscar atendimento individual para compreender seu sofrimento, suas necessidades e suas possibilidades de ação. O processo individual não garante mudanças no comportamento do parceiro.

Dra. Elaine RosaPsicóloga · CRP 06/127648 · Alphaville — Barueri/SP e online