Homem de camisa de mangas dobradas sentado a uma mesa de madeira em um escritório com abajur aceso, olhando o celular com expressão contida, com um porta-retrato de família ao fundo, ilustrando a dificuldade de controlar as apostas online.

Ludopatia e apostas online: quando o jogo compromete sua autonomia

Saúde mental6 min de leituraPor Elaine Rosa · CRP 06/127648

Quando as apostas passam a organizar a vida, buscar uma avaliação psicológica é um passo importante, mesmo antes de haver dívidas ou afastamentos.

A ludopatia, também chamada de transtorno do jogo, é uma condição de saúde mental caracterizada pela dificuldade de controlar as apostas, pela prioridade crescente dada ao jogo e pela continuidade desse comportamento apesar dos prejuízos. O comprometimento pode alcançar os relacionamentos, a saúde e o trabalho. Esses são aspectos centrais descritos pela Organização Mundial da Saúde.

Para quem lidera uma empresa, toma decisões clínicas ou administra responsabilidades complexas, reconhecer essa dificuldade pode trazer uma pergunta desconfortável: como alguém capaz de lidar com tantos problemas encontra tanta dificuldade para interromper um comportamento que lhe faz mal?

Essa pergunta merece uma investigação cuidadosa. A trajetória profissional diz muito sobre competências construídas ao longo da vida. Para compreender a relação com as apostas, porém, é preciso observar o que acontece antes, durante e depois de jogar — inclusive quando a vida profissional continua funcionando.

O que os afastamentos por ludopatia revelam

Uma investigação publicada pelo Intercept Brasil em 25 de junho de 2025 identificou 276 benefícios por ludopatia concedidos entre junho de 2023 e abril de 2025. A reportagem, baseada em dados do INSS, descreve uma elevação das concessões mensais naquele período. Trata-se de um recorte histórico, que ajuda a dimensionar as repercussões do problema na capacidade de trabalhar. Leia a investigação original.

É necessário interpretar esse dado com precisão: benefícios concedidos não equivalem ao total de pedidos nem ao número de pessoas com transtorno do jogo no país. Também não permitem concluir quais profissões seriam mais afetadas.

Para o cuidado psicológico, a reflexão é prática: o afastamento do trabalho pode representar uma consequência grave, mas a decisão de buscar ajuda pode acontecer muito antes dele.

Quando a capacidade de analisar deixa de orientar as escolhas

Considere uma situação hipotética: um empresário define um valor para apostar e ultrapassa esse limite. Ao perceber a perda, decide continuar para recuperar o dinheiro. Na manhã seguinte, mantém os compromissos da agenda, mas passa os intervalos revendo resultados e planejando a próxima aposta.

Uma leitura centrada apenas no patrimônio poderia minimizar o episódio: ele consegue absorver aquela perda. Uma avaliação mais ampla perguntaria o que aconteceu com o limite que havia estabelecido, quanto espaço o jogo passou a ocupar e quais compromissos ficaram em segundo plano.

O mesmo raciocínio se aplica a um CEO, a um médico ou a qualquer pessoa cuja rotina exija atenção e responsabilidade. A pergunta relevante é quanto o comportamento se mantém disponível à escolha e quanto passou a organizar a vida.

Algumas frases podem servir como ponto de partida para essa reflexão: “Preciso recuperar o que perdi”, “Depois desta rodada eu paro” ou “Enquanto eu continuar entregando resultados, está tudo bem”. Vale observar o que acontece quando essas justificativas entram em conflito com decisões tomadas anteriormente.

Sinais de que as apostas precisam de atenção

Os sinais centrais envolvem perda de controle, prioridade crescente do jogo e persistência apesar dos danos. Na rotina, vale observar:

  • Tentativas repetidas de reduzir ou interromper as apostas que não se sustentam.
  • Tempo dedicado ao jogo ocupando o lugar do descanso, da convivência ou do trabalho.
  • Continuidade das apostas mesmo após conflitos ou prejuízos reconhecidos.

Esses sinais justificam uma avaliação profissional. A OMS também ressalta que podem existir danos relacionados às apostas antes de a pessoa preencher os critérios de um transtorno. Veja os sinais descritos pela OMS.

Uma pergunta útil para começar é: “O que venho deixando de fazer, ou fazendo contra minhas próprias decisões, para continuar apostando?” A resposta pode revelar custos que ainda não aparecem no extrato bancário.

Como a ACT compreende a relação com as apostas

A Terapia de Aceitação e Compromisso, conhecida pela sigla ACT, trabalha o desenvolvimento da flexibilidade psicológica: a capacidade de perceber a experiência presente e agir de acordo com valores escolhidos, mesmo na presença de pensamentos e emoções difíceis. Conheça a definição da ACT pela Association for Contextual Behavioral Science.

Aplicada à compreensão de um caso, essa perspectiva convida a investigar a função do comportamento. A aposta oferece excitação? Uma pausa diante da cobrança? Uma tentativa de afastar a frustração? Essas são hipóteses a explorar individualmente, sem presumir uma explicação única para todas as pessoas.

Na ACT, aceitação significa abrir espaço para experiências internas desconfortáveis. Isso pode permitir reconhecer a urgência de apostar sem transformá-la imediatamente em ação. Outro processo, chamado desfusão cognitiva, ajuda a perceber pensamentos como pensamentos, reduzindo o domínio que eles exercem sobre o comportamento. Entenda os processos da ACT.

Por exemplo, perceber “estou tendo o pensamento de que preciso recuperar essa perda hoje” pode abrir espaço para examinar o próximo passo. Trata-se de uma ilustração do trabalho terapêutico, que precisa ser acompanhado de mudanças concretas e adequadas à situação da pessoa.

Valores pessoais precisam aparecer na rotina

Uma reflexão orientada pela ACT também considera como os valores se traduzem em comportamento. Estar presente na família, cuidar da saúde ou agir com responsabilidade profissional ganha significado nas escolhas cotidianas. A relação entre valores e ação é um dos fundamentos da abordagem.

Imagine alguém que considera a presença na vida dos filhos uma prioridade, mas acompanha apostas durante as conversas em casa. Nesse exemplo, o trabalho pode começar pela descrição do que “estar presente” significaria naquela rotina: reservar atenção, participar de uma atividade ou retomar um compromisso que vinha sendo adiado.

Essas escolhas oferecem referências para avaliar mudanças. A questão passa a incluir o que a pessoa está conseguindo reconstruir em sua vida, além do comportamento de apostar.

O que considerar no tratamento da ludopatia

O tratamento deve incluir avaliação dos prejuízos, das condições associadas e das necessidades de cada pessoa. A diretriz britânica NICE, publicada em 2025, recomenda terapia cognitivo-comportamental específica para problemas com jogos, com prevenção de recaídas, e admite entrevista motivacional para apoiar a disposição para mudar. Consulte a diretriz NICE NG248.

Há pesquisas sobre ACT e jogo problemático. Um ensaio de 2016, por exemplo, envolveu apenas 18 participantes em idade universitária e encontrou mudanças em medidas de flexibilidade psicológica e em respostas cerebrais após a intervenção. O tamanho e o perfil da amostra limitam a generalização. Esse estudo não demonstra superioridade sobre a TCC nem permite prometer resultados individuais. Dixon, Wilson e Habib, 2016.

Um plano de cuidado pode combinar psicoterapia, medidas para dificultar o acesso às apostas, apoio para lidar com as consequências financeiras e avaliação de outras necessidades de saúde. A participação de pessoas de confiança deve ser discutida com o paciente. Recaídas exigem reavaliação do plano e continuidade do apoio. Recomendações de acompanhamento do NICE.

Atendimento psicológico em Alphaville e online

Se as apostas têm ocupado um espaço que você já não consegue administrar, a psicoterapia pode oferecer um contexto para compreender o que está acontecendo e avaliar os próximos passos do cuidado.

Elaine Rosa é psicóloga, tem 10 anos de experiência clínica e atua com a Terapia de Aceitação e Compromisso. Realiza atendimentos presenciais em Alphaville, Barueri, e online.

Conheça o atendimento de Elaine Rosa e entre em contato para agendar uma conversa inicial.

Este conteúdo é informativo e não substitui uma avaliação individual.

Perguntas frequentes

É possível ter problemas com apostas mesmo sem estar endividado?

Sim. A avaliação considera o controle sobre o comportamento e suas consequências em diferentes áreas da vida. Conflitos, abandono de atividades importantes e dificuldade de interromper o jogo merecem atenção mesmo sem dívidas. Critérios descritos pela OMS.

A ACT busca eliminar a vontade de apostar?

A ACT trabalha a relação com pensamentos, emoções e impulsos, buscando ampliar a capacidade de escolher ações alinhadas a valores. A presença de uma vontade pode ser reconhecida sem determinar a próxima ação. Fundamentos da ACT.

Preciso esperar a situação se agravar para procurar ajuda?

Você pode procurar uma avaliação assim que perceber sofrimento, dificuldade de mudar ou interferências na vida cotidiana. Há cuidado disponível também para familiares afetados. Orientações de acesso ao cuidado do NICE.

Dra. Elaine RosaPsicóloga · CRP 06/127648 · Alphaville — Barueri/SP e online