Adolescente de costas escrevendo em um caderno, sentado a uma mesa de estudos perto da janela, com o celular virado para baixo, enquanto uma mulher adulta espera à porta do quarto segurando uma xícara, ilustrando o apoio dos pais a um adolescente com ansiedade.

Ansiedade na adolescência: autoestima, identidade e como os pais podem apoiar

Adolescência e família8 min de leituraPor Elaine Rosa · CRP 06/127648

Apoiar um adolescente com ansiedade passa por escuta, limites claros e espaço para que ele descubra quem é.

Um adolescente pode entregar os trabalhos, conquistar boas notas e cumprir uma agenda exigente enquanto enfrenta um medo persistente de decepcionar. Para a família, a dificuldade é perceber o que acontece além dos resultados: quanto esforço emocional tem sido necessário para sustentar aquela rotina?

A ansiedade na adolescência merece atenção quando se torna intensa, persistente ou começa a prejudicar o sono, os estudos, as relações e a participação na vida cotidiana. Os pais podem apoiar oferecendo escuta, limites claros e oportunidades de autonomia, além de buscar avaliação profissional quando necessário.

Compreender essa fase também exige olhar para duas questões que atravessam o crescimento: como o adolescente percebe seu próprio valor e que espaço encontra para descobrir quem é.

Quando a ansiedade na adolescência merece atenção?

Sentir apreensão antes de uma prova, de uma apresentação ou de uma experiência nova faz parte da vida. A intensidade, a frequência e o impacto desse desconforto ajudam a distinguir uma preocupação passageira de uma dificuldade que precisa ser avaliada.

Entre as manifestações possíveis estão preocupações difíceis de interromper, irritabilidade, tensão, problemas de concentração e alterações do sono. Dores de cabeça ou de barriga também podem acompanhar a ansiedade, mas precisam ser consideradas em seu contexto, inclusive médico.

O National Institute of Mental Health — NIMH explica que, em jovens com ansiedade generalizada, as preocupações podem envolver escola, amizades, futuro, medo de errar e de desapontar outras pessoas. A busca pela perfeição pode aparecer nesse cenário.

Esses sinais, isoladamente, não confirmam um diagnóstico.

Autoestima: quando o resultado parece definir o próprio valor

Vale observar como a família conversa sobre conquistas e dificuldades. O boletim pode orientar uma conversa sobre aprendizagem, mas não responde a perguntas como “meu filho se sente aceito?” ou “ele consegue pedir ajuda quando erra?”.

Uma forma de ampliar essa conversa é reconhecer aspectos concretos da vida que ultrapassam o desempenho: uma atitude cuidadosa com um amigo, a disposição para aprender algo desconhecido ou a honestidade ao admitir uma dificuldade. Há espaço para celebrar resultados e, ao mesmo tempo, demonstrar interesse pela pessoa que os alcança.

A aparência também merece atenção. Em orientação sobre imagem corporal na adolescência, o UNICEF destaca a preocupação quando o jovem passa a vincular seu valor à aparência e isso interfere em sua vida. Comparações nas redes sociais e comentários depreciativos sobre corpos podem compor esse contexto.

Em casa, evite transformar peso, forma física ou beleza em medida de sucesso. Se as preocupações com o corpo passam a dominar a rotina, com restrição alimentar, exercício excessivo ou afastamento de atividades, procure orientação profissional.

Identidade e autonomia: espaço para descobrir quem se é

Interesses, amizades, opiniões e projetos de futuro podem se modificar ao longo da adolescência. A Organização Mundial da Saúde — OMS reconhece a exploração da identidade, as pressões dos pares e as mudanças físicas e sociais entre os elementos relevantes dessa etapa. Também destaca a importância de ambientes familiares e escolares de apoio.

Na prática, cabe abrir espaço para perguntas que ainda não têm resposta. Um adolescente pode experimentar uma atividade, rever uma escolha profissional ou discordar dos pais sem precisar apresentar imediatamente uma versão definitiva de si.

Isso permite conversar sobre responsabilidade de modo concreto: quais decisões ele já consegue tomar, em quais precisa de orientação e quais envolvem segurança. Diante de uma escolha diferente da esperada, uma pergunta útil é: “O que te interessa nesse caminho e o que você gostaria de conhecer melhor?”.

Como os pais podem apoiar no dia a dia

1. Escute antes de apresentar soluções

Ao ouvir “não aguento mais a escola”, investigue o significado dessa frase antes de propor mudanças. Pode haver uma situação específica que ainda não foi contada.

Experimente: “Qual parte do dia está mais difícil?” ou “Você quer que eu escute primeiro ou que pense em possibilidades com você?”. O UNICEF recomenda escuta ativa e perguntas abertas, respeitando também os momentos em que o adolescente ainda não consegue falar.

Reconhecer a emoção não exige concordar com todas as conclusões. É possível dizer “percebo como isso te assustou” e continuar procurando entender o que aconteceu.

2. Torne o apoio visível também fora das crises

Reserve momentos em que a conversa não tenha como pauta principal notas, tarefas ou comportamento. Interesse-se por uma música, um projeto, uma amizade ou algo que o adolescente queira compartilhar.

O contato pode acontecer em atividades simples, sem transformar cada encontro em uma entrevista. As orientações do UNICEF para apoiar a saúde mental dos adolescentes incluem disponibilidade para conversar, construção conjunta da rotina e respeito ao espaço individual.

3. Combine limites que possam ser compreendidos

Explique o motivo das regras e ouça como elas afetam a rotina. Um acordo sobre o celular pode considerar sono, estudo, convivência e segurança, com um momento definido para avaliar o que funcionou.

Deixe claro o que pode ser negociado e o que precisa ser preservado por proteção. Em conflitos intensos, faça uma pausa e retome a conversa quando houver condições de escuta. Esse cuidado também integra as recomendações do UNICEF sobre apoio familiar.

4. Pergunte pelo custo da agenda

Uma semana cheia pode reunir atividades importantes e prazerosas. Também pode deixar pouco espaço para descanso e convivência. Vale examinar a rotina com o adolescente: quais compromissos fazem sentido para ele, quais se tornaram excessivos e onde cabem pausas?

Sono, atividade física e relações de apoio estão entre os fatores de proteção destacados pela OMS. Pense nessas condições como parte da organização da vida familiar, sem transformar o autocuidado em outra tarefa sujeita a cobrança por desempenho.

5. Observe o ambiente em que o sofrimento acontece

Antes de interpretar uma recusa escolar como falta de esforço, procure compreender o contexto. Há humilhação, bullying, discriminação, conflitos ou uma exigência difícil de sustentar? A OMS inclui violência e bullying entre os riscos à saúde mental nessa fase.

Se houver uma situação de ameaça, a resposta precisa incluir proteção e articulação com a escola e os profissionais envolvidos. Pedir que o adolescente simplesmente “enfrente o medo” pode ignorar um problema real que exige ação dos adultos.

O olhar da ACT sobre ansiedade e identidade

A Terapia de Aceitação e Compromisso, conhecida como ACT, trabalha com a flexibilidade psicológica: perceber pensamentos e emoções e ampliar a capacidade de agir em direção ao que importa. Essa perspectiva é apresentada pela Association for Contextual Behavioral Science — ACBS.

Um exemplo ilustrativo é a frase “se eu errar, todos vão me rejeitar”. Na ACT, pode-se aprender a reconhecer: “Estou tendo o pensamento de que serei rejeitado”. Esse pequeno deslocamento ajuda a examinar o pensamento sem tomá-lo automaticamente como uma descrição dos fatos.

O trabalho também pode explorar valores: que tipo de amigo, estudante ou pessoa o adolescente deseja ser? Quais atitudes expressam esses valores em situações concretas?

Aceitação, nesse contexto, diz respeito à abertura para experiências internas. Ela não significa aceitar violência, humilhação ou condições prejudiciais. A aplicação da abordagem precisa considerar a idade, o contexto e as necessidades de cada adolescente.

Quando procurar uma psicóloga para adolescentes?

Procure avaliação quando o sofrimento persiste, se intensifica ou interfere na vida cotidiana. Isolamento crescente, perda de interesse, alterações importantes no sono ou na alimentação e dificuldades para frequentar a escola merecem atenção.

O NIMH orienta buscar ajuda diante de sofrimento ou prejuízos em casa, na escola e nas relações. Não é necessário esperar uma queda nas notas para conversar com um profissional. Queixas físicas também podem exigir avaliação médica.

Na primeira conversa, vale perguntar como o adolescente será ouvido, como os responsáveis participarão e como o progresso será acompanhado. Também é importante esclarecer como funcionarão a privacidade e os limites de confidencialidade no atendimento.

Se houver automutilação, falas sobre morrer ou risco de ferir a si ou a outras pessoas, busque ajuda imediatamente. Diante de perigo imediato, procure um serviço de emergência.

Psicoterapia para adolescentes em Alphaville e online

Acompanhar um adolescente envolve conhecer alguém que está mudando e rever, junto com ele, as formas de cuidado. A psicoterapia pode oferecer um espaço para compreender essas dificuldades e construir caminhos possíveis.

Elaine Rosa é psicóloga, CRP 06/127648, com cerca de dez anos de experiência clínica e atuação orientada pela Terapia de Aceitação e Compromisso. Realiza atendimentos presenciais em Alphaville, Barueri, e online.

Conheça o atendimento psicológico para adolescentes com Elaine Rosa e entre em contato para conversar sobre a demanda e a modalidade adequada ao caso.

Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui avaliação psicológica ou médica individualizada.

Perguntas frequentes

Um adolescente com boas notas pode ter ansiedade?

Sim. O desempenho escolar não revela sozinho a intensidade das preocupações ou o sofrimento. Medo de errar, perfeccionismo, dificuldade de descansar e prejuízos nas relações também precisam ser considerados.

Como conversar quando meu filho diz “não quero falar”?

Mostre disponibilidade, respeite o momento e proponha retomar a conversa. Evite exigir uma explicação imediata. Se perceber sinais de risco, procure ajuda mesmo que ele ainda tenha dificuldade para se expressar.

Os pais precisam participar da psicoterapia?

A participação é definida conforme a idade, a avaliação e as necessidades do caso. Os responsáveis podem receber orientações e contribuir com o cuidado, preservando um espaço para a expressão do adolescente.

Dra. Elaine RosaPsicóloga · CRP 06/127648 · Alphaville — Barueri/SP e online